Floresta do Camboatá x Novo Autódromo

Você sabia que o Rio de Janeiro está prestes a perder uma floresta para dar lugar a uma pista automobilística?

O nosso mandato tem como uma das prioridades a defesa da Floresta do Camboatá. Uma área de 169 hectares, encravada entre os bairros de Deodoro e Guadalupe, que abriga cerca de 200 mil árvores e é o último remanescente de Mata Atlântica em área de baixada da cidade. Estamos na luta, mas as negociatas para derrubar a floresta e entregar o espaço à Fórmula 1 estão a pleno vapor.

Na semana passada duas notícias tornaram essas transações ainda mais evidentes e nebulosas.

A primeira foi divulgada pelo site de notícias UOL e mostrou a promessa do governador Wilson Witzel de isentar em mais de 300 milhões de reais a empresa que vai realizar duas provas da Fórmula 1 aqui na cidade. São apenas duas provas automobilística que levarão dos cofres públicos exatos 302 milhões de reais.

Importante lembrar que prefeito, governador e presidente disseram que a construção do novo autódromo e a Fórmula 1 aqui no Rio não acarretaria em nenhum gasto público. Em entrevista para a imprensa, ao lado do então melhor amigo Wilson Witzel, o presidente Jair Bolsonaro declarou que o Autódromo seria “construído em seis, ou sete meses, sem nenhum dinheiro público”.

Isenção fiscal é dinheiro público.

O valor proposto pelo governador é maior do que o solicitado pela Rio Motorsport, única empresa a participar da licitação do novo autódromo e automaticamente a vencedora da oferta. Aliás, a Rio Motorsport está enrolada até o pescoço com denúncias de fraude.

Em junho, o site G1 denunciou que o capital social da empresa é de R$ 100 mil. Esse montante equivale a 0,14% dos R$ 69 milhões de capital social mínimo que o edital para a licitação do novo autódromo exigia. Além disso, a Rio Motorsport foi criada 11 dias antes do lançamento da concorrência. E o presidente da empresa é sócio da consultoria que ajudou a elaborar o edital de licitação.

Também na semana passada, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) divulgou o EIA-RIMA do Camboatá. O Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto Ambiental foi feito pela empresa Terra Nova Gestão de Projetos Sociais e Ambientais.

O documento tem seis volumes e cada um conta com cerca de 200 páginas. Por isso, ele ainda está sendo analisado por um grupo de ambientalistas, mas já é possível comentar alguns pontos do EIA-RIMA escrito pela empresa.

O estudo começa falando da importância do circuito automobilístico e da Fórmula 1 para o Rio de Janeiro. Um claro sinal de incoerência porque o automobilismo não tem nenhum valor esportivo para a cidade, ou tem?

O Inea defende a destruição da Floresta pelo viés social e urbanístico. E cita no relatório dezenas de projetos sociais de difícil associação com a questão ambiental como por exemplo o Programa Cegonha Carioca e o Programa Nacional de Alimentação Escolar.

Outro detalhe importante é que o Relatório dá o mesmo peso para intervenções como: Instalação de Linha de Transmissão de Energia e a alteração da Flora. No cálculo entre pontos “positivos” e negativos” os “sábios” chegam à conclusão que vale mais a pena destruir a floresta porque lá só será preciso extrair 70% das árvores. Para eles, o fato de ser mais próximo ao aeroporto e a área já contar com estrutura no entorno, torna o Camboatá a primeira opção.

Outras cinco opções elencadas pela própria Secretaria Municipal de Meio Ambiente são descartadas a partir de parâmetros de comparação no mínimo equivocados e criminoso do ponto de vista ambiental.

Outro absurdo é que o relatório dá como certa a “invasão” da área, “já que não se encontra sobre a proteção do exército”. Aqui é importante lembrar que são os próprios moradores do entorno do Camboatá que reivindicam a proteção daquela área. Afinal eles serão os mais impactados.

A justificativa usada como ganho socioeconômico pela empresa que fez o EIA-RIMA é a mesma da Copa e das Olimpíadas. Segue abaixo trecho do relatório:

Do ponto de vista socioeconômico a não implantação do empreendimento acarretará na manutenção do status quo da região, sem movimentação da economia local e regional, sem geração de empregos associados à implantação e a operação do empreendimento, sem a arrecadação de impostos e sem as melhorias de infraestrutura”. Um blá blá blá que o carioca já conhece muito bem e não cai mais.

A previsão de ganho trabalhista é baixa, eles contabilizam apenas 155 empregos usados no autódromo. E o relatório detalha o cronograma de obra citando inclusive o processo de corte das árvores e da terraplanagem. As últimas páginas mais parecem com um projeto executivo da obra.

Outro engodo facilmente desconstruído é que o relatório que primeiramente prevê o replantio das árvores da Floresta, também detalha em um dos itens que: “há alta probabilidade de que durante a construção de possíveis túneis muitas raízes de árvores que compõem os fragmentos florestais sejam atingidas ocasionando a morte da vegetação”. Ou seja, eles não vão replantar 200 mil árvores em outro lugar, eles vão replantar meia dúzia para fazer foto e enganar os trouxas.

O documento é muito extenso, ambientalistas ainda trarão novidades.

Aqui na Câmara, apresentamos dois projetos de lei para proteção da área. São os 0632/2017 “CRIA A ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL DA FLORESTA DO CAMBOATÁ (…)” e o 1345/2019 “CRIA O REFÚGIO DE VIDA SILVESTRE DA FLORESTA DO CAMBOATÁ”. E estamos sistematicamente nas ruas colhendo assinaturas em defesa da Floresta.

Não permitiremos que aquela mata seja derrubada em prol de qualquer empreendimento que seja. Se os governos carioca e fluminense querem trazer a F1 para o Rio, que façam com responsabilidade ambiental, fiscal e social.