Luta Antimanicomial: por que é errado chamar Bolsonaro de louco?

No 18 de maio é comemorado o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Além da comprovada ineficácia dos manicômios como modelo de cuidado em saúde mental, essa luta tem como um de seus pilares a constatação de que esses são lugares de violação dos direitos mais básicos das pessoas que sofrem algum transtorno mental. Com o amadurecimento dos debates chegou-se à conclusão de que manicômios não são apenas as estruturas físicas, mas também as relações manicomiais que se fazem presentes na nossa sociedade de diversas formas. Desde a falta de oportunidades de trabalho para as pessoas estigmatizadas como loucas, até a negação do cuidado, quando seu patrão diz que “ansiedade é besteira” para não te dar a licença médica, por exemplo. A lógica manicomial afeta a nós todos, embora de maneiras diferentes.

Quando dizemos que alguém está louco, histérico ou que deu um “piti”, usando essas expressões com intenção depreciativa, reproduzimos essa lógica. Derrubar os manicômios, visíveis e invisíveis, que existem em nossa sociedade é dar um outro sentido à loucura que não seja o da exclusão.
Através da História, a loucura já foi vista de maneiras muito distintas. Em algumas sociedades já foi considerada como algo divino, por exemplo. Atualmente, os militantes da Luta Antimanicomial, se movimentam para alcançar o reconhecimento de que a loucura é apenas uma experiência diferente do que o dito “normal” (afinal, de perto ninguém é) e que é tão válida quanto qualquer outra forma de ser.

Chamar alguém de louco também é uma das formas de estigmatizar quem não serve à lógica do capital. Até pouco tempo, as pessoas que eram trancafiadas nos manicômios eram mulheres adúlteras, filhos bastardos (e suas mães) e outros tipos de “indesejáveis” para a produção e reprodução do capital, pessoas pobres e negras em sua maioria. Como a indústria das internações movimenta quantias milionárias, o ato da internação é ainda uma forma de reinserção dos “loucos” na cadeia produtiva, mas não mais como força de trabalho e sim como matéria-prima, onde o que se produz é a “cura” . Após a aprovação da lei da Reforma Psiquiátrica, em 2001, os manicômios no Brasil começaram a ser desativados e, com isso, essa indústria das internações percebeu que os usuários de drogas eram uma importante reserva de mercado. O resultado foi a rápida multiplicação da quantidade de Comunidades Terapêuticas¹ e o aumento do repasse de verbas do Governo Federal para essas instituições.

Radicalidade, crueldade, irresponsabilidade e violência não é loucura. Mas no cenário político, essa é uma associação comum. O mesmo discurso habitual da sociedade, que classifica como louco o que não é “normal”, tende a rotular dessa forma também as figuras públicas que marcam seus posicionamentos e ações pelo ódio, por exemplo. E pior: acabam justificando esses comportamentos. E é aí que entra Bolsonaro. A tentativa de diagnosticá-lo, acaba prestando um desserviço à luta antimanicomial e pode acabar servindo de desculpa para ele continuar fazendo o que faz. Bolsonaro não é nenhum louco, ele não subverte a ordem do capital de nenhuma forma. Ele é um cachorro adestrado que obedece a uma parcela da classe dominante que o colocou ali e que vai mantê-lo enquanto ele for útil ao projeto de dominação da classe trabalhadora. Vamos parar de usar a loucura e outras categorias para atacar o presidente: Bolsonaro não é louco, ele é um CANALHA!

Neste ano tão difícil em que nós vivemos, em função do distanciamento social, as atividades do Dia Nacional da Luta Antimanicomial estão acontecendo todas online. No dia 18 de maio, o Núcleo Estadual da Luta Antimanicomial – NEMLA/RJ realizou uma live com uma programação que contou com falas políticas, intervenções artísticas e tudo que sempre podemos ver nos atos de rua. Em função do novo formato e da quantidade de participações que vieram de usuários, trabalhadores e familiares de toda a rede de saúde mental carioca, a Semana Antimanicomial que estava prevista para acontecer entre os dias 11 e 18 de maio, precisou ser estendida até o próximo sábado, dia 23. Fique ligado nas redes do NEMLA/RJ. Aqui no facebook é a página “Luta Antimanicomial RJ” e no Instagram é @nemlarj.

Nenhum passo atrás! Manicômios nunca mais!

Bolsonaro não é louco!

Saúde não se vende! Loucura não se prende! Quem tá doente é o sistema social!
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1. Comunidades Terapêuticas são instituições privadas que realizam internação de pessoas que fazem uso de drogas. Em pesquisa conduzida pelo IPEA, em 2012, foi demonstrado que, em sua maioria, são instituições de cunho religioso com pouco quadro profissional técnico capacitado para este tipo de serviço. Relatórios produzidos pelo Conselho Federal de Psicologia e outras organizações de Direitos Humanos já apontaram as profundas violações dos direitos das pessoas que estão internadas em grande parte dessas instituições.