Crivella não distribui merenda e causa fome durante isolamento

As aulas no município foram suspensas no dia 16 de março e 642 mil estudantes que tinham a sua rotina de alimentação fornecida pela escola pública perderam acesso a merenda. Com as escolas da SME (que é a maior rede escolar da América Latina) a prefeitura possui uma linha de distribuição alimentar que poderia suprir um décimo da população da cidade durante a crise da Covid-19.

avia, também, verba para esta ação, porque o dinheiro da merenda já estava empenhado. Bastava, portanto, vontade política.

No entanto, presenciamos uma sucessão cruel de desrespeito a vida humana. As crianças ficaram sem alimento. A comida que estava nas escolas foi doada para instituições (em grande parte de caráter religioso). A prefeitura usou apenas ⅓ da verba empenhada para a merenda.

No primeiro mês da crise, foram distribuídos apenas 3 litros de leite por criança da educação infantil. Os intolerantes a lactose não receberam nada. Depois, criou-se critérios confusos na distribuição de cartões com R$100,00 que não chegaram para todos os beneficiários de bolsa família nem do CAD único. Dos cartões distribuídos, alguns foram recarregados e outros não, sem que a razão seja devidamente explicada.

Demorou-se 3 meses para distribuir cestas básicas que não atendiam a toda a rede. Cestas tão mal supridas que a própria prefeitura preferiu chamar timidamente de kit alimentação.E o kit era por família, como se uma família com 4 crianças na rede pudesse alimentá-las com a mesma quantidade de comida daquelas que tem apenas 1 criança.

No quarto mês, finalmente, percebeu-se que era necessário distribuir comida para toda a rede. Mas a imperícia foi ainda maior. Com frequência, famílias com mais de uma criança precisaram ir a dois locais diferentes no mesmo horário (ambos longe de seu local de moradia e das escolas em que estudavam). A entrega das cestas sofreu constantes atrasos e adiamentos. Mães, muitas vezes acompanhadas das crianças, se viram obrigadas a se deslocar e se aglutinar em longas filas.

Difícil acreditar que isso tudo seja só incompetência de gestão. Parece que a política da fome é proposital, como se a prefeitura quisesse induzir as famílias a tornarem seus filhos e filhas vetores de uma política de imunidade de rebanho. Seria desumano imaginar uma política que transforma crianças em instrumentos de morte para pais e avós. Mas a inexplicável dificuldade em agir com uma estrutura já formada traz fortes desconfianças sobre essa hipótese.

No dia 22 de junho, a secretária municipal de educação ouviu – durante a audiência pública sobre o retorno das aulas – a pergunta: “Quantas crianças vocês estão dispostos a matar?”. Ela foi feita pelo Movem (Movimento de Pais e Responsáveis da Escola Pública Municipal Carioca). O vereador Renato Cinco repetiu a pergunta e complementou: “Quantas crianças nós estamos dispostos a matar? […] Quantos pais de aluno? Quantos profissionais de educação? Porque, senhora secretária, se nós não estamos dispostos a matar nenhum, então as aulas só podem voltar depois que houver vacina!”

Diferentes movimentos sociais (Movem, Brigadas Populares e Passeata das Mães) se articularam construindo uma frente mais ampla pela garantia da alimentação, estão juntos na luta “Merenda é direito, não é favor!”. O Movem promove uma pesquisa para reunir as informações que não conseguem da prefeitura: https://bit.ly/3j3iSvP. Nosso mandato enviou um ofício à Secretaria Municipal de Educação no dia 26 de maio e até hoje (17/07) não obteve nenhuma resposta.

Veja abaixo o ofício:

Mães, pais e responsáveis estão sendo obrigados a quebrar o isolamento social para exigir aquilo que é um direito pétreo: o direito a vida e alimentação. É preciso dar um basta nessa situação. Crivella, distribua a alimentação para todos os alunos da rede. Garanta o direito ao isolamento social. Entregue a renda básica carioca. Cumpra seu dever de gestor. Merenda não é favor, é direito.