Mudemos o sistema, não o clima

desmatamentoA Rede Internacional Ecossocialista divulgou o manifesto “Nossas vidas valem mais do que os seus lucros!” – declaração frente a COP20, que será realizada em Lima, no Peru. O documento é assinado por diversos ativistas, intelectuais e parlamentares, entre eles Renato Cinco. Leia a íntegra do texto:

Nossas vidas valem mais do que os seus lucros!
 
(Declaração da Rede Internacional Ecossocialista frente a COP20 em Lima, Peru, Dezembro de 2014)
 
A crise climática iminente que enfrentamos hoje é uma grave ameaça para a preservação da vida no planeta. Muitos trabalhos acadêmicos e declarações políticas confirmam a fragilidade da vida na Terra em função da mudança de temperatura. Apenas alguns graus podem causar – e estão a causar – uma catástrofe ecológica de consequências incalculáveis. Agora mesmo estamos experimentando os efeitos mortais desta situação. O derretimento do gelo, a contaminação da atmosfera, o aumento do níveis do mar, a desertificação e aumento da intensidade dos fenômenos meteorológicos são a prova.

Daí é fundamental nos perguntarmos quem e o que está causando essa mudança no clima. Precisamos urgentemente desmascarar todas as respostas abstratas, que tentam culpar toda a humanidade. Tais respostas abstratas desconectam a situação atual da dinâmica histórica que surgiu com a industrialização baseada em combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), que provoca o aquecimento global, e da lógica do capitalismo, que é sustentado pela apropriação privada da riqueza, na conquista do lucro à custa da exploração social e devastação ecológica, duas faces de um mesmo sistema que é o responsável pela catástrofe climática.
 
Neste panorama, as Conferências das Partes (COPs), organizadas por diversos governos patrocinados por grandes corporações, confirmam a responsabilidade do capitalismo na crise climática, conduzindo eventos vazios, sem quaisquer resoluções eficazes e capazes de resolver o problema. É até mesmo possível identificar retrocessos, como em "fundos verdes" baseados no lucro escancarado com as emissões. Infelizmente, essa dinâmica é aprofundada através das atitudes sustentadas por vários governos que facilitam a poluição e colocam os lucros das corporações acima do bem-estar das pessoas. Isso pode ser visto hoje com maior intensidade nos países do Sul, e, portanto, é fundamental compreendermos que a dinâmica deste sistema tende a despejar a crise ecológica global sobre os ombros dos oprimidos e explorados da terra.
 
É vital enfatizar a importância das diversas lutas sociais e ecológicas em todo o mundo, que propõem deter as mudanças climáticas e a crise ecológica através de uma lógica de solidariedade. É importante perceber que muitos desses processos são iniciados e liderados por mulheres. Sem dúvida, o cenário latino-americano hoje exemplifica a mistura de resistência, autogestão e processos de transformação, com base em projetos que podem unir a ciência e as novas tecnologias com as cosmovisões ancestrais. Um exemplo pode ser encontrado nas lutas corajosas dos povos indígenas e camponeses do Peru, em particular sua resistência ao projeto de megamineração Conga. Também é importante chamar atenção para a experiência do Parque Yasuni, que foi a iniciativa dos movimentos indígenas e ecológicos para proteger uma grande região de floresta amazônica da perfuração de petróleo, em troca de pagamentos dos países ricos para o povo de Equador. O governo de Rafael Correa aceitou a proposta por vários anos, mas, recentemente, decidiu abrir o parque para corporações multinacionais de petróleo, provocando protestos importantes. Outro caso pode ser encontrado na luta contra os projetos de “desenvolvimento” que o governo brasileiro está tentando realizar, que ameaçam uma grande parte da Amazônia com a destruição causada por grandes barragens.
 
A partir dessa perspectiva, espera-se muito pouco da COP20 em dezembro em Lima, Peru. Se existe uma solução para a mudança climática e a crise ecológica global, esta surgirá a partir do poder de luta e organização dos povos oprimidos e explorados do mundo, com o entendimento de que a luta por um mundo sem devastação ecológica deve se conectar à luta por uma sociedade justa e igualitária. Esta mudança deve começar agora, reunindo lutas, esforços diários, processos de autogestão e reformas para diminuir a crise, com uma visão centrada em uma mudança de civilização rumo a uma nova sociedade em harmonia com a natureza. Essa é a proposta central do ecossocialismo, uma alternativa para a atual catástrofe ecológica.
 
Mudemos o sistema, não o clima!

Assinam:
Argentina: Manuel Ludueña, Paulo Bergel; Bélgica: Christine Vanden Daelen, Daniel Tanuro; Brasil: Joao Alfredo Telles Melo, Marcos Barbosa, José Corrêa, Isabel Loureiro, Renato Roseno, Renato Cinco, Henrique Vieira, Flávio Serafini, Alexandre Araújo Costa, Carlos Bittencourt, Renato Gomes; Canadá: Jonatas Durand Folco (Quebec), Terisa Turner; Estado Espanhol: Esther Vivas (Cataluña), Jaime Pastor, Justa Montero, Mariano Alfonso, Teresa Rodrigues, Manuel Gari. Jorge Riechmann, Joaquin Vega; Estados Unidos: Ariel Salleh, Capitalism, Nature and Socialism (Revue, USA), Joel Kovel, Leigh Brownhill, Qunicy Saul , Salvatore Engel Di Mauro, Terran Giacomini; França: Christine Poupin, Dominique Cellier, Henrik Davi, Mathieu Agostini, Michel Bello, Michael Löwy, Vincent Gay. Laurent Garrouste, Sophie Ozanne; Grécia: Yorgos Mitralias, Panos Totsikas; México: Andrés Lund, Samuel González Contreras. José Efraín Cruz Marín; Noruega: Anders Ekeland; Peru: Hugo Blanco; País Basco: Iñigo Antepara, Josu Egireun, Mikel Casado, Sindicato ELA. Ainhara Plazaola; Suiça: Juan Tortosa, Mirko Locatelli. Anna Spillmann, Félix Dalang