Crise hídrica: não é apenas falta de água

As águas de março passaram e diluíram parte da preocupação da imprensa com a crise hídrica no Brasil. Mas o leve aumento no volume de água nos reservatórios está muito longe de ser o suficiente para evitar sérios problemas durante o período de estiagem e no próximo verão.

É neste contexto que os mandatos do vereador Renato Cinco e do deputado estadual Flavio Serafini, ambos do PSOL, promoveram o debate “Colapso Hídrico e o Ecossocialismo”. Para formar a mesa foram convidados Alexandre Araújo (físico do clima e professor da Universidade Estadual do Ceará), Alexandre Pessoa (Pesquisador da Fiocruz), Carlos Vainer (professor do IPPUR-UFRJ) e Flávia Braga (professora da UFRRJ).

O físico Alexandre Araújo fez uma apresentação do cenário climático global que deixou parte do público assustada e preocupada. Alexandre começou alertando que a crise hídrica não é um problema restrito ao país, citando problemas de abastecimento na Califórnia e na China.

“Uma quantidade adequada de gases estufa garante a vida no Planeta, permitindo que a Terra não seja uma bola congelada. Mas atualmente estamos em uma condição que tais gases se acumulam na atmosfera em quantidade sem precedentes nos últimos 800 mil anos. E pior: estamos indo perigosamente para condições climáticas que não encontram precedentes nos últimos 40 milhões de anos, quando ocorreu a última extinção em massa”, declarou Alexandre.

Araújo também falou dos perigos do crescimento econômico, seguindo o atual modelo de desenvolvimento. “Não haverá socialismo em terra arrasada. Não haverá emprego e salário sem água, solo e um clima profundamente alterado. O pensamento de esquerda precisa se reaproximar da ecologia”, defendeu.

Para a professora Flávia Braga, “a crise hídrica é também uma questão política, que reflete o modelo de desenvolvimento escolhido pelas elites. “Usamos grande quantidade de água para atender as demandas do agronegócio e da indústria”. Flávia também apontou o caráter seletivo dos pacotes de racionamento adotado pelos governos, com cortes de água mais prolongados nas regiões periféricas das cidades.

Alexandre Pessoa criticou o atual modelo de desenvolvimento. “Existe uma sede de desenvolvimento que está causando desenvolvimento da sede. Um ecossistema que tem relações ecológicas e sociais é transformado em pátio industrial com refinarias e portos”.