Se a cidade fosse nossa

3Na última segunda-feira (15), a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) recebeu o lançamento do movimento “Se a Cidade Fosse Nossa”. Iniciativa da PSOL carioca, a atividade contou com a participação de mais de 500 pessoas, dispostas a debater e transformar a cidade em que vivem.

“Se a cidade fosse nossa, a Vila Autódromo não seria removida. Muita coisa diferente estaria acontecendo. Esta cidade será de todos e todas! Uma caminhada que começa bem, mas o caminho começa ao caminhar, como dizia o poeta.”, afirmou Tarcísio Motta, professor e candidato a governador pelo PSOL, que foi responsável pela mediação do debate.

Participaram da mesa, como debatedores, Marcelo Freixo (deputado estadual pelo PSOL, professor e militante de Direitos Humanos), Monica Cunha (educadora social e coordenadora do Movimento Moleque), Raquel Rolnik (arquiteta e urbanista, e professora da USP) e Vladimir Safatle (filósofo e professor da USP).
Freixo destacou, em sua interveção, a necessidade de que os cariocas tenham o direito de intervir sobre os rumos da cidade: “Nós queremos muito mais do que o direito à cidade. Queremos o direito de transformar a cidade. O direito a modificar, opinar e decidir sobre o meio de transporte, educação e saúde. Se a cidade fosse nossa, a luta por Direitos Humanos seria essencial na administração pública.”

Já Monica Cunha falou, a partir da sua experiência pessoal e de militância, sobre o quanto a cidade, chamada “maravilhosa”, pode não ser assim para muitos jovens e adolescentes que vivem nela. “Muitos adolescentes e jovens estão sem documentos e não tem acesso à cultura. Alguns jovens nunca foram ao cinema. Você entra na favela e eles nem sabem o que é isso. É um absurdo! Porque a cidade é nossa. Ela foi construída por nós. As pessoas visitam o Rio e ficam maravilhadas com o Pão de Açúcar e outros pontos turísticos, e nossos jovens não conhecem estes lugares. Eles deviam conhecer! A cidade também é deles! Infelizmente, o sistema socioeducativo tem cor, a favela tem cor e o cemitério também tem cor. Hoje a luta é para se manter vivo. Eu perdi meu filho e vou continuar para que outros pais não continuem perdendo os seus.”, afirmou Monica.

“A luta do direito à cidade não é nova. Ainda falta romper com a ambiguidade da favela, que até agora não ficou claro se ela faz parte da cidade. Pois o tratamento dado a estas áreas é, claramente, muito diferente daquele que é dado às demais regiões da cidade. Constatamos isso desde a atuação policial ao precário fornecimento de serviços. As favelas são tratadas apenas como cidade na hora do voto, mas depois o governo esquece isso na hora de removê-las”, explanou Raquel Rolnik, evidenciando o abismo social e de direitos existente entre o “asfalto” e o “morro”.

Safatle encerrou as falas, reforçando a urgência de que a esquerda brasileira se mantenha organizada e pronta para os desafios que estão colocados: “estamos em um momento de profundo esgotamento das cidades. Esse modelo de governabilidade já se esgotou. Hoje é um momento fundamental pra experiência da esquerda. Precisamos acreditar na nossa capacidade de transformação.”

Em discurso no plenário, realizado na terça-feira (16), o vereador Renato Cinco, que esteve na ABI, reafirmou a importância da atividade na construção de uma alternativa política para o Rio.

A próxima atividade do movimento “Se a cidade fosse nossa” acontecerá no próximo sábado (20). Mais informações no “Entre Nessa!” dessa edição do boletim.