Escolas em situação de risco

No mês da educação, chamado de “outubro vermelho” por todos que lutaram em 2013 por um plano de carreira digno, alunos e professores estão sendo vítimas da violência no entorno das escolas.

A criminalização da pobreza fica explícita em diversas ações em curso na cidade: por um lado, a construção do sentimento de pânico e medo nas praias da Zona Sul legitimou a adoção de uma política de segregação social e racial; por outro lado, a vida das crianças e jovens pobres e negros nas comunidades da Zona Norte e Oeste não tem sido fácil. São duas faces da mesma moeda.

As Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s), grande aposta do governo do estado, já se mostraram um programa de segurança ineficiente. Dentro desse quadro, algo ainda mais grave tem ocorrido: a violência cotidiana em áreas próximas às escolas, para a qual as UPP’s têm contribuído.

Na Vila Cruzeiro, a comunidade da Escola Municipal Leonor Coelho Pereira, integrante da IV Coordenadoria de Ensino (CRE), tem vivido um semestre de terror. Na terceira semana de agosto, a escola foi invadida pela tropa de choque. Os policias entraram na unidade perseguindo um menino, que foi agredido e preso no pátio.

Há diversas denúncias – que partem de alunos, pais e profissionais da educação – sobre frequentes interrupções das aulas por conta de confrontos em áreas próximas. Ao ser entrevistada pelo nosso mandato, uma estudante do 9º ano desta escola, que preferiu não se identificar, afirmou que a base da UPP localizada perto da instituição não dá sensação de segurança, mas de terror.

Infelizmente, essa não é uma situação isolada. Escolas do Complexo da Maré sofrem há mais de dois anos em virtude de ações policiais violentas. A UPP, que deveria cumprir a função de proteger a comunidade, dissemina medo e insegurança. Favelas e territórios marginalizados são áreas desprovidas de direitos e expostas a uma política de segurança que oprime e amedronta. Assim, a formação das crianças e jovens dessas regiões fica precarizada.

O Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (SEPE) acredita que um compromisso das escolas com a garantia do ano letivo e do ensino de qualidade é fundamental. Assegurar o direito à vida é o princípio básico da educação! Não se pode expor estudantes, professores e funcionários ao risco constante. Desta maneira, qualquer ação policial nas proximidades da escola é prejudicial também ao processo educativo. Por isso, elas deveriam ser sempre evitadas, principalmente nos horários de aula.

Leia a entrevista:

Mandato do Vereador Renato Cinco (MVRC): Quais são as ações violentas que têm ocorrido no entorno da Escola?

Aluna da E.M Leonor Coelho Pereira (A): São muitas e quase todo dia. A polícia atira e tem confronto. Já presenciamos um menino ser preso dentro da escola e vimos ele apanhando. A tropa de choque da polícia entrou e não respeitou nem a diretora.

MVRC: As ações têm prejudicado as aulas?

A: Toda semana temos dias sem aulas. No mês passado, chegamos a ficar uma semana inteira.

MVRC: Como é estudar em uma região impactada pela violência?

A: Horrível! Não tem um dia que não tenha confronto. Temos medo quando saímos de casa e quando voltamos, e ficamos todos tensos na hora da aula – nós e os professores. Quinta-feira passada, os professores da tarde não puderam ir pra casa no horário, pois tinha ação policial na comunidade.

MVRC: Ter uma UPP por perto traz alguma segurança?

A: Pelo contrário. A base da polícia, da UPP, fica aqui perto, na Praça São Lucas. Uma amiga minha, da minha turma, quase levou um tiro. Ela tinha saído da escola umas onze e pouca da manhã. Na frente dela um menino, que tava preso, conseguiu escapar dos policiais em frente à base; e os policiais começaram a atirar em cima do menino e ela no meio.