“Prepara, nem!”: respeito e inclusão para as pessoas trans

O “Prepara, nem!” iniciou os trabalhos esse ano e já mostrou a que veio. Começou com a ideia de ser um curso pré-vestibular acolhedor, que oferecesse aulas gratuitas para pessoas trans, mas já se tornou algo maior.

Para além da preparação para o Enem e outros vestibulares – o que era a ideia inicial -, oferece auxílio para concursos e busca por vagas de emprego, além de ter se tornado um espaço de encontro e apoio. Os professores e as professoras são voluntários e todas as decisões são tomadas de forma coletiva.

Cada dia da semana o curso está em um lugar diferente, de acordo com a disponibilidade das organizações que apoiam. O Espaço Plínio acolheu a família “Prepara, nem!” durante alguns meses. Nosso mandato tem muito orgulho de ter contribuído com essa iniciativa.

Para explicar melhor o projeto, entrevistamos Indianara, idealizadora do “Prepara”; Luiza, professora de química; e Luciana e Haluxx, aluna e aluno do curso. Confira!

– Indianara, presidente do “Transrevolução”

Gabinete do vereador Renato Cinco (GVRC): Como surgiu a ideia do “Prepara, nem!”?

Indianara (I): O “Prepara, nem!” é uma ideia minha antiga, de capacitação profissional e formação escolar para travestis e transexuais. Com a internet, queria incluir noções de informática. Depois deixei de lado e voltei com a ideia, querendo que a Giselle fosse parceira no Transrevolução para os grandes eventos no Brasil e no RJ, se tornando um curso de idiomas e noções de informática para as TTT’s (Travestis, Transexuais e Transgêneros).
Com o Enem, entrou então a necessidade do cursinho preparatório. Como Giselle morreu, esse ano, descendo Santa Teresa com o Thiago – que insistia que eu me inscrevesse no Enem como exemplo -, comecei a expor minha ideia de um curso para as TTT’s. Ele se prontificou a ajudar. Fomos para a casa dele e, enquanto ele fazia minha inscrição no Enem, surgiu o nome “Prepara, nem!”.

GVRC: E aceitação/adesão foi boa? Como foi esse processo?

I: Lançamos na internet e houve uma adesão muito boa de voluntários pra dar aula, além de umas 20 alunas e um menino trans.

GVRC: Qual era o maior objetivo/intenção das pessoas que procuraram o curso?

I: O maior objetivo era o Enem, mas começou a ser usado para outros vestibulares ou concursos, vagas de emprego, entre outras, e acabou se estendendo além daquilo que se propunha.

GVRC: O Enem já passou, como foi o resultado?

I: Ainda não sei o resultado de todes.

GVRC: Para além do resultado na prova, quais outros resultados você aponta como positivos?

I: O maior objetivo de quem nos procura é em um cursinho pré-vestibular, sem opressões ou discriminação.

Para além das provas, é essa interação entre alunes e professores. E a ajuda que se estende além da sala de aula, com arrecadação de roupas e alimentos para doação, arrecadação de verbas, mas sempre com alunes envolvides.

GVRC: Como você e o pessoal que impulsionou o curso avaliam a experiência?

I: A avaliação é ótima. Excelente mesmo.

GVRC: O “Prepara, nem!” volta no ano que vem?

I: O “Prepara, nem!” continua e se estende como “Alfabetiza, nem!” e também para escola Tia Angélica, Zona Oeste e Nova Iguaçu.

GVRC: Como o curso se organiza? Como as alunas e professores/colaboradores interagem e decidem as questões relativas ao curso?

I: O “Prepara” é organizado através de reuniões onde tudo – tanto as aulas como outras atividades – é discutido entre professores e alunes de forma horizontal.

– Haluxx Maranhão (HM), estudante e militante dos direitos de transexuais e minorias.

GVRC: O que significa o “Prepara, nem!” para você?

HM: O “Prepara, nem!” é um projeto que vai para além do sentido de inserção e preparação de pessoas transvestigêneras no ingresso ao universo acadêmico. Nesse sentido posso dizer que o projeto é pioneiro, idealizado pela ativista Indianara Siqueira Alves e colaboradores, visando o empoderamento tanto social e político quanto da própria capacitação des alunes no ingresso nas universidades, sem a anulação das vivências des mesmos.

GVRC: Quais são os projetos futuros do “Prepara,nem!”?

HM: Como homem trans não binário, faço do projeto um aliado e um braço de luta contra o sistema educacional falido ao qual nos encontramos atualmente, visando facilitar e integrar tanto aos educadores quanto aos futuros alunes uma nova forma didática, que realmente seja inclusiva a nós, pessoas trans.

GVRC: Qual foi o maior aprendizado nesse processo?

HM: Como ativista/ estudante, minha maior experiência foi aprender, admirar e unir a força da superação, resiliência e humanidade de várias pessoas transexuais que tiveram que abandonar sua trajetória acadêmica justamente por não estarmos “adequados”, dentro do fatídico sistema de educação que hoje funciona no país.

É preciso uma mudança drástica no processo educacional no Brasil. O “Prepara, nem!” vem com os dois pés na porta do preconceito e da falta de políticas públicas, na falida forma de aprender que temos hoje.

– Luiza (L), professora de química do “Prepara, nem!”.

GVRC: O que significa o “Prepara, nem!” para você?

L: Bem, me chamo Luiza, sou transexual e professora de química no “Prepara, nem!”. O projeto está sendo uma experiência maravilhosa na minha vida; está sendo um intercâmbio onde, além de transmitir o meu conhecimento, estou aumentando a minha bagagem cultural com as experiências vividas pelas meninas… O “Prepara” vai muito além de um simples projeto, tornou-se uma família: a FAMÍLIA NEM; família esta onde todos lutam pelo mesmo objetivo, ajudam uns aos outros, sempre ajudando a quem precisa. Agradeço a Deus pela Família Nem existir.

Família Nem, Família Nem, família igual não tem!

GVRC: Quais são os projetos futuros do “Prepara, nem!”?

L: Bem, todos sabem que nós, trans e travestis, somos uma parte da sociedade que sofre uma certa exclusão. Acho legal existir projetos voltados para trans, mas acho que seria muito melhor se a nossa sociedade passasse por um curso de como aprender a lidar com as diferenças, para que todas as pessoas (heteros, homossexuais, bissexuais, trans, travestis, negros, judeus, etc) se unissem e lutassem por um Brasil melhor.

GVRC: Qual foi o maior aprendizado nesse processo?

L: Num curso voltado para pessoas trans, as meninas vão se sentir mais a vontade, estarão entre pessoas que compartilham da mesma história. Isso é legal.

Num local onde tenha pessoas iguais a você, tudo flui. Você se sente mais feliz. O preconceito não existe.

– Luciana Vasconcelos, aluna do “Prepara, nem!”.

GVRC: O que significa o “Prepara, nem!” para você?

LV: O “Prepara, nem!” hoje para mim é tudo. É minha família, minha vida, meu momento escolar, meu momento de relaxamento… E o “Prepara, nem!” significa muito para mim, porque, através dele, hoje tenho como efetivar os meus objetivos. Eu, que fui uma profissional do sexo, hoje consigo me colocar como uma estudante, porque o “Prepara, nem!” me deu essa oportunidade.

E eu quero ingressar com tudo, porque acho que ele está me dando oportunidades para eu realmente reconhecer que posso ser inserida numa sociedade que é tão injusta.

Hoje agradeço o “Prepara, nem!” por tudo o que está fazendo na minha vida e o que ainda vai fazer.