Ocupa tudo!

55Centenas de escolas e universidades estão sendo ocupadas em mais de 22 estados na luta pela educação pública, gratuita, laica, emancipatória e de qualidade.

A partir de 3 de outubro, algumas escolas começaram a ser ocupadas no estado do Paraná contra três projetos que atacam a educação pública de qualidade. A Medida Provisória 746 (que basicamente retira a obrigatoriedade do ensino de artes, educação física, filosofia e sociologia no ensino médio) e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que tramitava na Câmara dos Deputados com o número 241 (e agora tramita no Senado com o nome de PEC 55) e congela investimentos sociais por 20 anos, ambas encaminhadas ao Congresso pelo governo Temer. E, finalmente, o projeto “Escola Sem Partido”, que tramita em diversas casas legislativas (municipais e estaduais) com diferentes nomes, mas o mesmo objetivo: restringir a liberdade de pensamento crítico dentro de sala de aula, instituindo, de fato, uma escola com mordaça. Em poucos dias, centenas de escolas passaram a ser ocupadas por todo o estado do Paraná. O auge do movimento foi quando em 21 de outubro, o movimento Ocupa Paraná contabilizava mais de 850 escolas ocupadas por todo o estado.

Seguindo o exemplo das escolas do Paraná, estudantes de mais 21 estados (incluindo o Rio de Janeiro) também ocuparam diversas instituições de ensino (centenas de escolas e dezenas de universidades). O site da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) informava em 27 de outubro que 1177 escolas estavam ocupadas por todo o Brasil. As ocupações seguiam a lógica de ressignificação do espaço escolar, que norteou as ocupações escolares de São Paulo no fim de 2015 e do Rio no início deste ano. Diversos debates, atividades culturais e aulas abertas sobre os mais variados temas, relacionadas ou não a matérias do grade curricular de ensino, estão sendo organizados. Além dessas atividades, os mutirões de limpeza, segurança e alimentação foram parte da rotina dos jovens, fazendo com que muitos deles passassem a se encantar com o convívio em sociedade e a redescobrir uma das principais funções sociais da escola.

Sobre o debate da real função da educação, no dia 26 de outubro, ocorreu uma Audiência Pública na Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), na qual emergiu um dos símbolos do movimento. A estudante Ana Júlia Ribeiro, de 16 anos, fez uma fala contundente e emocionante de dez minutos que deixou os deputados presentes atônitos. A jovem, que ocupava o Colégio Manuel Alencar Guimarães em Curitiba, rejeitou o rótulo de ‘doutrinados’ que movimentos de direita quiseram imputar aos alunos lutadores. “É um insulto a nós que estamos lá nos dedicando, procurando motivação todos os dias, nos chamar de doutrinados. É um insulto aos estudantes e aos professores. Nós não estamos lá de brincadeira, sabemos pelo que estamos lutando, a nossa única bandeira é a educação, somos um movimento dos estudantes pelos estudantes. Somos um movimento que se preocupa com as gerações futuras, com a sociedade, com o futuro do país. Que futuro o Brasil vai ter se não nos preocuparmos com uma geração de pessoas que vão desenvolver senso crítico? As pessoas não podem ler um negócio e, simplesmente, acreditar naquilo. Temos que saber o que estamos lendo, temos que ser contra o analfabetismo funcional que é um grande problema no Brasil hoje”, declarou emocionada a secundarista.

Ana Julia também lembrou que as ocupações são uma manifestação contrária ao projeto ‘Escola sem partido’:

“Uma escola sem senso crítico é uma escola racista, homofóbica. É querer formar um exército de não-pensantes, um exército que ouve e abaixa a cabeça. O “Escola sem partido” nos humilha e fala que não temos capacidade de pensar”, disse. O vídeo de sua fala já foi visto por mais de 6 milhões e 240 mil pessoas apenas na página do Mídia Ninja (assista aqui).

Após uma ofensiva de forças conservadoras, arregimentadas pelo Movimento Brasil Livre (MBL), as escolas no Paraná foram desocupadas; algumas com o uso de força policial, outras com violência contra os ocupantes. Entretanto, até esta quinta (10), 581 instituições de ensino seguem ocupadas contra a MP 746 de reforma do ensino médio, a PEC 55 do congelamento de investimentos sociais e o “Escola Sem Partido”, sendo 391 escolas, 186 universidades e quatro espaços como câmaras municipais, reitorias e secretarias de educação. No Rio de Janeiro, estão ocupadas as unidades do Colégio Pedro II do Centro, Engenho Novo, Humaitá, Realengo, São Cristóvão, Tijuca e Duque de Caxias e o Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) de Duque de Caxias, Nilópolis, Paracambi, Paulo de Frontin, Realengo e São Gonçalo. Além das universidades: Rural (campi Seropédica, Nova Iguaçu e Três Rios) , UFF (campi Rio das Ostras, Santo Antonio de Pádua, Gragoatá e Macaé), UNIRIO, UFRJ (campi IFCS e Macaé) e FEMAS Campus Macaé.

Diversos artistas, como Leoni e Fábio Assunção, já prestaram solidariedade e visitaram as ocupações do Colégio Pedro II Realengo e Engenho Novo, respectivamente. As atividades diárias abertas ao público são divulgadas nas páginas das ocupações. Nesta quinta (10), por exemplo, a ocupação da unidade da Tijuca do CPII realizou uma oficina de fotografia de manhã, uma roda feminista com a militante Mariana Bruce à tarde, e exibição do documentário “O que restou de Junho” seguido de debate com o diretor do filme. O ‘Ocupa’ Realengo já realizou palestras sobre neurolinguística, aspectos gerais da economia, sobre o projeto “Escola sem partido”, oficinas de retóricas, de literatura e os “aulões” (aulas abertas a toda comunidade com professores convidados) sobre biologia, redação, geografia, história e diversas outras matérias.

Os alunos das escolas e universidades prometem manter as ocupações até o governo Temer recuar nas pautas da reforma do ensino médio e na PEC 55, que congela os investimentos em educação. A proposta é continuar essa grande onda de luta por todo o Brasil, com centenas de instituições de ensino ocupadas, e transformar o cotidiano das escolas.

Seja como for, as ocupações já trouxeram uma vitória, pois como bem disse a estudante paranaense Ana Júlia em seu discurso: “O movimento estudantil nos trouxe um conhecimento muito maior sobre política e cidadania do que todo o tempo em que nós estivemos sentados, enfileirados em aulas padrões. Em uma semana de ocupação aprendemos mais sobre política do que em todos anos de sala de aula. Nós deixamos de ser meros adolescentes e nos tornamos cidadãos comprometidos.”

O mandato coletivo do vereador Renato Cinco está junto com a juventude na luta por melhores condições do ensino público! Por isso, apoia as ocupações das escolas por parte dos estudantes. Além disso, o mandato apresentou o Projeto de Lei (PL) 745/2014, que assegura a livre organização estudantil e a constituição de grêmios.