Ecossocialismo ou extinção: entrevista com Alexandre Araújo

4Renato Cinco entrevistou, na última terça-feira (22), Alexandre Araújo, professor titular da Universidade Estadual do Ceará. Alexandre é Ph.D. em Ciências Atmosféricas e esteve na COP 22, em Marrakech.

Os dois conversaram sobre a crise ecológica que o mundo vive nos dias atuais, sobre os resultados da COP 22 e sobre as alternativas à catástrofe ambiental. Para ambos, a solução só será possível a partir da mobilização popular.

Leia a entrevista completa:

Renato Cinco – Qual é o tamanho do problema hoje? Como o senhor analisa, de uma forma mais geral, a questão ambiental hoje?

Alexandre Araújo – A gente não vai encontrar adjetivo. Extremo, imenso, gigante. Nada disso descreve. O colapso ecológico global – com a sua ponta de lança, que é a crise climática – constitui o maior desafio já posto para a civilização humana, em todos os tempos. O que nós estamos falando é de um risco de desestabilização e de inviabilização das condições materiais de sustento à vida do planeta como a conhecemos. A nossa adaptação enquanto espécie e de várias outras se deu em uma determinada faixa climática, de temperaturas, em torno de uma determinada precipitação de chuvas e de neves, que alimentam rios, geleiras, que propiciaram o aparecimento de determinadas formas de vida: vegetal e animal. É dentro deste contexto que a gente se sustenta enquanto espécie. Nossa espécie tem aproximadamente 200 mil anos e só veio florescer enquanto civilização depois de 10 mil anos, com um clima muito estável. Nós só conseguimos criar uma civilização a partir do momento em que os assentamentos humanos perceberam que havia padrões climáticos que se repetiam. E isso só se deu a partir de um período de particular estabilidade, conhecido como Holoceno, em que as concentrações de CO2, por exemplo, permaneceram praticamente constantes e em que as mudanças de temperatura foram muito sutis. Nesse sentido, quando a gente fala em mudança climática, eu acho que a melhor analogia é com um organismo febril. Hoje, nós estamos 1,2ºC acima das civilizações pré-industriais e isso já suficiente para trazer secas recordes, tufões e furacões recordes em escala nunca vistas. É suficiente para trazer ondas de calor mortíferas. É como você estar naquele estado febril, ou de febre baixa. Já é incômodo, já é ruim. Geralmente vem com coriza, dor no corpo etc. Então, não queria imaginar como é esse planeta com dois graus de febre, três graus de febre. Não queira imaginar o que é um sistema climático convulsionando em última instância. Derreter o gelo da Groenlândia implica em o mar subir seis metros. Derreter o gelo da Antártida implica em o mar subir 64 metros. Eu quero dizer para vocês: o número é muito claro e direto. Os cientistas não têm mais que ficar dourando pílula ou falar meias verdades. Toda vida, na história geológica da Terra, relativamente recente, em que as concentrações de CO2 excederam algo como 400 a 450 partes por milhão, não há calota permanente no Hemisfério Norte. Nós hoje estamos com 404 partes por milhão. Nós vamos fechar o ano de 2016 com um recorde de temperatura global e um recorde extremo de concentração de CO2. Então, o problema é sério e grave.

RC – A gente ouve muito falar de tentar evitar o aquecimento em 2º até 2100. Hoje a gente já vê que está em 1,2ºC. Como você imagina esta questão da escala de tempo, em relação ao degelo dos Polos?

AA – Do ponto de vista da escala de tempo, ondas de calor, já é algo presente e atual. Foi publicado recentemente artigo na Naty Planet It, um dos jornais mais conceituados da área, que hoje ¾ das ondas de calor são atribuídas ao aquecimento global antrópico. Na verdade, a gente poderia exigir que 75% das indenizações por mortes em ondas de calor fossem debitadas das contas correntes dos executivos das petroquímicas, por exemplo. Hoje, 40% das grandes enchentes também são atribuídas ao aquecimento global. E as supertempestades, como de tufões e furacões, nós temos hoje uma situação inédita. A nossa escala, que mede a intensidade dos furacões, atribuia um número de um a cinco, do mais fraco ao mais intenso; acontece que o Haima, que varreu as Filipinas e matou mais de seis mil pessoas em 2013 e o Patricia, que felizmente perdeu força antes de chegar ao México, estava coberto de 325Km/h. Os dois já poderiam ser classificados como tempestade de categoria seis. Eles saíram da escala. O que diz respeito às secas intensas. Também já é alto o que nós estamos acompanhando. As maiores incertezas, talvez em termos de quão rápido é o processo, dizem respeito justamente à desestabilização das calotas polares. Hoje, nós temos uma perda de gelo dos mantos da Groenlândia e da Antártida combinada de 399 bilhões de toneladas por ano. No que diz respeito ao gelo marinho, que flutua sobre os Oceanos, o gelo do Ártico perdeu 80% do seu volume de verão e está, neste momento, no menor valor jamais observado em período de outono. O gelo da Antártida mostrava outra tendência. Era uma tendência à expansão, mas veja só a contradição: isso tinha a ver com o aquecimento global, porque o aquecimento global torna a atmosfera da Antártida mais úmida e aumenta a produção de neve. E a neve, ao se depositar no oceano, estabiliza a camada superior, bloqueando o fluxo de calor que vem de baixo. Então, na verdade, aquela expansão do gelo da Antártida, que se observou na década passada e no início dessa década, se deveu a esse fator. A gente sabia, no entanto, que em algum momento isso iria mudar. O mais impressionante é que isso mudou praticamente de uma hora para outra. Neste momento, também em 2016, a Antártida está com o mínimo valor de gelo marinho para este período do ano. Então, você combina os dois recordes. Nós chegamos a figuras muito estranhas. É muito incerta. A gente não sabe se uma grande aceleração do degelo se daria na escala de décadas, ou de poucos séculos, mas as estimativas giram por aí. De qualquer modo, todos os estudos que saíram nos últimos três anos apontam para uma tendência a um degelo muito maior e muito mais rápido do que nós achávamos anteriormente – e que, por exemplo, chegamos a publicar na nossa comunidade, até o 5º do IPCC, cuja parte da física das mudanças climáticas saíram, em 2013. Nos últimos três anos, foi feito muito esforço da comunidade para tentar diminuir as incertezas e os resultados não são nada animadores. Por exemplo, artigo publicado na Revista Science mostra que o mundo está entre 1,5ºC, 2ºC mais quente. Veja, justamente os dois limites de Paris. A elevação do nível do mar, que aconteceu no ano passado. O episódio mais recente de um aquecimento desta magnitude aconteceu há 400 mil anos. E, nesse período, os mares estavam de seis a treze metros mais elevados. Quero insistir nesta questão, porque a combinação deste processo todo provoca secas extremas e inviabiliza o acesso de amplas parcelas da população à água; promovem a quebra de safra agrícola; provoca ventos extremos. No caso do Haima, nas Filipinas, foi terrível, porque além dos seis mil mortos, tivemos dois milhões de atingidos. Com a elevação de treze metros do nível do mar, você desaloja seis milhões de pessoas só em Bangladesh. É um país praticamente todo a dez mil metros do nível do mar e que tem 154 milhões de pessoas morando lá. Então, se você juntar todos esses extremos, o que você tem: refugiados primários, migração em massa, opressão enorme sobre as fronteiras nacionais e, aí, o tecido social civilizatório entra em risco de colapso em escala global. Numa situação como essa aí, veja, as classes dominantes têm o seu “plano”, talvez seja o plano A da burguesia. Nesse Titanic global de crise climática a maioria está presa no porão e a maioria continua no camarote, no convés, ouvindo orquestra. Eu cruzei duas informações, uma delas dados recentes, publicados pela Germany OSCE, sobre quais países são mais atingidos pelas mudanças climáticas. E aí a lista era: Honduras, Vietnã, Filipinas, Tailândia, Haiti. E eu cruzei isso com a etnia. Nenhum desses países têm a maioria branca. O país mais branco dessa lista é a Guatemala, que tem um terço de brancos.

RC – Eu vi essa sua postagem e compartilhei. Inclusive, estava aqui no meu roteiro de perguntas para você. A gente entra no debate também do racismo ambiental. Na verdade, é evidente que o colapso total atinge todos, mas a gente não está falando necessariamente de um colapso total, mas de uma inviabilização da vida como nós conhecemos hoje, da organização da humanidade como nós conhecemos hoje, mas que ela pode continuar, digamos, num espaço restrito do planeta, no pior dos cenários. Mas ainda existiria a possibilidade de acomodação desses sobreviventes e aí, do jeito que se faz as disputas no nosso planeta, a gente consegue imaginar que os sobreviventes vão estar numa esfera de poder que não é da maioria da população mundial. Alexandre, me deixa trazer um pouco as minhas preocupações de curioso e muito ignorante ainda sobre a questão. Eu fico tentando olhar os vários cenários que os ambientalistas, que os governos apresentam e fico tentando imaginar as margens do limite do otimismo e do limite do pessimismo. Sobre o limite do pessimismo, eu já vi que há setores que acham que não é possível nem tentar mais impedir o colapso das condições ambientais. No limite do otimismo – bom, otimismo não é uma boa palavra, mas no cenário menos catastrófico – você tem algumas centenas de milhões de desalojados pelo clima nas próximas décadas. Recentemente, eu estava vendo o filme do Leonardo Dicaprio e fiquei impressionado com o Obama colocando em dúvida a sobrevivência da ordem mundial e, pelo o que eu entendi, ele estava colocando essa dúvida pensando no cenário menos catastrófico. Então, só em função dessa necessidade de migração planetária, hoje, se não me engano, a ONU calcula em 65 milhões de refugiados. E a gente está vendo aí o passo de ganso ressurgindo em vários lugares do mundo, com a extrema direita, inclusive, se alimentando dessa questão da migração para ressurgir com força em vários países. Inclusive, vimos aí a eleição do novo imperador do mundo, o Donald Trump, a partir desse discurso de ódio. Então, assim, o mundo, saindo de 60 milhões de refugiados para 200, 250, 300 milhões de refugiados, já é um cenário absolutamente preocupante. Tudo bem que eu não estou preocupado como o Obama, com a sobrevivência da ordem mundial. Até porque eu acho que é essa ordem mundial que vem produzindo esse cataclismo ambiental. Mas preocupado com a sobrevivência da humanidade, que a gente consiga enfrentar essa questão e que a maioria sobreviva e não as elites do mundo apenas.

Eu queria que você falasse um pouco desse balanço da COP 22, em Marrakech. Um balanço não só ao que foi produzido, mas a diferença de onde nós estamos e onde você gostaria que nós estivéssemos nesse debate ambiental.

AA – Nossa, a diferença é imensa, porque, na verdade, a gente precisava hoje estar completamente livre dos combustíveis fósseis e ter eliminado o desmatamento como um todo e já ter passado para coisas do tipo: mudar inclusive a prática alimentícia. Reduzir as emissões da agropecuária, da fermentação entérica pelo metano, por parte do gado bovino e outros animais. O balanço da COP 22, eu não posso dizer que é frustrante, porque eu não tinha muitas expectativas. Na verdade, eu tenho pouquíssimas expectativas com esse palco negocial. Você vê: solução da crise climática via COPs e entendimentos na esfera dos governos dos Estados Nacionais. A grande maioria deles vendida, vinculada, serviçal de petroquímicas, carvoarias, mineradoras, do agronegócio. Ou alguns, que não são, ficam de joelhos. Eu não vejo saída sem participação popular, em primeiro lugar. No andar de cima, o que a gente pode falar da COP é que ela foi muito atingida pelo efeito Trump. Tanto de um lado, certo desânimo de algumas equipes de negociação de alguns países, com mais boa vontade, sentiram o baque. O próprio stand do pessoal dos EUA. Eu visitei e metade do stand quem organizava eram as instituições científicas, a parte boa: NASA, NOA. E os colegas cientistas todos deprimidos com o resultado. Trump coloca na Agência de Proteção Ambiental um indivíduo ligado aos irmãos Koch, que são magnatas do petróleo. À frente do departamento de energia…eu achava que iria ser só bravata todo o discurso dele anti imigração, mas parece que não vai ser. Mesmo que ele não cumpra todo o player de ameaças que ele colocou, parece que ele está afim de tomar algumas medidas sérias neste aspecto. Então, veja: Trump, de um lado, é um grande problema. Isso abriu vácuo até para a China protagonizar algumas iniciativas positivas. Se a gente está nas mãos da China, a gente está em maus lençóis. Outros países aproveitaram-se da deixa do Trump para bancar o oportunismo do tipo: “ah, mas já que os EUA não vão se esforçar, a gente também não vai”, o que era um dos meus temores, que tivesse um certo efeito dominó. Existem movimentações contrárias, no entanto. 40 países em desenvolvimento fecharam compromisso de transição para uma matriz 100% renovável. E é lastimável que o Brasil não esteja envolvido nesse esforço. Aliás, o Brasil passou vergonha. Não obstante o Zequinha Sarney, sobrenome esquisito, mas ele para fazer uma boa figura, ele conhece as causas, ele tem uma certa tradição e sensibilidade, mas ele é aquela peça decorativa dentro do governo golpista. É até interessante porque o Temer fez questão de mandar o Blairo Maggi, para mostrar a real face do governo Temer perante o mundo. O Blairo Maggi foi um dos pontos baixos da COP 22. Só para ter uma ideia, numa única participação dele, ele disse que as metas do Brasil na COP 21 eram apenas intenção e que não tinha dinheiro para implementar e que os “produtores”, ou seja, os ruralistas e latifundiários, iriam precisar de recurso para não desmatar mais ou coisa que o valha. Olha só o que ele está querendo: mais dinheiro, é uma pauta totalmente corporativa, do próprio movimento ruralista, do agronegócio. E, em segundo, ele fez a comparação da reserva legal da Amazônia a um hotel. É vergonhoso, em pleno século XXI, um ministro de Estado dizer isso. Veja quando você tem uma grande propriedade. 80% têm que ser preservados. E isso deveria ser uma obviedade. Afinal de contas, você preserva biodiversidade, solo, água, inclusive para produzir nos outros 20%. Se você detona tudo, você detona a agricultura que produz para esses países todos. A reserva legal é uma necessidade vital. Ele disse que a reserva legal era como se fosse um hotel com 100 quartos, que você só pudesse ocupar 20. Na verdade, a comparação é muito infeliz, porque é como se ele reclamasse que a cama só ocupasse 20% do quarto. Veja, 80% do quarto é área de circulação, é área para você ir ao banheiro, para colocar as suas roupas. Um quarto de hotel tem 80% da área dele destinada para outras coisas. Só a cama que ocupa os 20%. Então, é uma comparação infeliz. Mas nada é pior do que ele disse no final, ao ser questionado sobre as mortes de ambientalistas. Existe um relatório que diz que 185 ambientalistas foram assassinados no ano passado globalmente, e o Brasil tristemente lidera o ranking. Os maiores conflitos são mineração, agronegócio e madeireiras e aí veja: Blairo Maggi, quando foi questionado pelos 50 assassinatos no Brasil, respondeu: “Só 50? Porque ontem eu ouvi que eram 200.” Na verdade, ele ouviu o galo cantar e não sabe onde. Ele leu o relatório que eram quase 200 ambientalistas mortos no mundo todo, achou que era só no Brasil e disse que estava feliz, porque morreram menos 150 ambientalistas. E que em muitos casos essa estatística era inflada por nós, porque você chegava lá, olhava perto, não eram conflitos por terra, ou por hidrelétrica, ou por agronegócio, ou por mineração, mas um problema de relacionamento. Eu quero dizer ao ministro escroto da agricultura que nós temos um problema de relacionamento de princípio com o sistema que ele representa e com o governo que ele representa. Então, no final das contas, a COP avançou muito pouco. Na verdade, quase nada em relação à Paris. Muito incremental como eu esperava. A minha aposta em ir era conhecer de fato. Eu tive a oportunidade de fazer alguns contatos com o outro lado: os movimentos dos povos tradicionais, dos povos indígenas. Esses são efetivamente os mais bravos e mais valentes. Tem agora protestos acontecendo há vários dias, lá em Dakota, contra a construção do oleoduto. Os indígenas colocam efetivamente os corpos à frente e são eles que falam abertamente de mudar o sistema, de revolucionar o que está aí. Teve também uma articulação interessante. Foi a primeira vez que vi uma mesa com a aquela qualidade falar abertamente sobre os temas colocados. A mesa era: “não há emprego num planeta morto”. Essa mesa contou com a participação de movimento dos trabalhadores, de movimento sindical disposto a fazer um amplo debate sobre a transição necessária. Ou seja, nós precisamos sim dialogar já com os mineiros, com os petroleiros, no sentido de que os postos de trabalhos que eles ocupam hoje têm que desaparecer. A gente não tem mais como fazer mediação em torno disso. O que a gente precisa é de uma transição justa. Não são eles que têm que pagar pela crise climática. Então, nós precisamos, por exemplo, que a Petrobrás tenha um plano rápido, acelerado, de transição para uma empresa de energia limpa, que garanta os postos de trabalho dos que hoje são petroleiros, treine todo mundo de novo, para trabalhar com novas formas de energia para solarizar esse país. Colocar energia no teto da casa dessas pessoas, inclusive para baratear a conta de luz delas, economizar água e não emitir CO2. Esse debate era muito incisivo neste sentido.

RC – Uma questão: é um erro absolutamente estratégico você colar, no centro das perspectivas de futuro do país, a exploração do pré sal. Mas esse debate se o pré-sal vai ser explorado pelas grandes irmãs, ou se vai ser explorado pela Petrobras, é totalmente limitado diante da necessidade de deixar o pré sal onde está. O nosso planejamento estratégico tinha que ser no sentido de a Petrobras liderar a transformação da matriz energética do país.

AA – Isso, porque essa conta também já está feita, meu camarada Renato. Nós não podemos passar de 450 partes por milhão de CO2 na atmosfera. Nós já estamos no limite, do limite, do limite. Para chegar a esses 450, basta que a gente queime 10% das reservas fósseis. Então, 90% do petróleo, do carvão e do gás tem que ficar onde está, no chão. Isso implica o petróleo do pré-sal; as areias betuminosas do Athabasca; o topo de montanha da China, que tem carvão dentro e está sendo explodido para extrair; o gás de fracking, o gás de xisto que está sendo extraído da forma mais violenta e poluente através do fraturamento hidráulico. Isso tudo tem que permanecer intacto e, aí, essa panaceia em torno do pré-sal, essa visão de fóssil de dinossauro, que a esquerda brasileira repete, essa prostração em relação ao petróleo é ridícula. Esquerda é aquela que defende dinheiro para educação, mas vindo de onde? Tem que auditar dívida, tem que cobrar imposto sobre fortunas, imposto sobre lucro, que é uma vergonha nesse país, imposto sobre carbono, taxar o carbono. E você poderia taxar o carbono e parte deste recurso ir para a educação. Então, ao invés de você tirar carbono do subsolo, jogá-lo para a atmosfera e ferrar com o futuro das crianças e jovens, acenando com a educação; não, meu amigo, nós vamos garantir educação e garantir futuro, e garantir água e garantir comida. Esse debate já precisaria ter sido superado. O PSOL, o conjunto da esquerda combativa, precisava sair desse buraco fóssil. Carvão, petróleo e gás são para ficar no chão, essa é a nossa palavra de ordem.

RC – A gente não pode ficar na posição de dinossauro. Não dá para pegar os restos dos dinossauros e terminar com a nossa vida atualmente. Precisamos de um despertar dos povos para a questão ambiental, para que a população do planeta, através da sua organização, da sua luta, consiga impor aos governos e às empresas a solução. Parece-me que dos Estados Nacionais e das empresas não vão vir a solução. Na verdade, estão fazendo conta de como lucrar com toda essa tragédia ambiental.

AA – Isso. Eles são abutres. Eles são capazes de lucrar até com essa desgraça, com o crédito de carbono, a especulação e, no limite, coisas bem piores, como os projetos de CCS – Captura e Armazenamento de Carbono – ou a calamidade total que é a Gel Engenharia. Eu não tenho oportunidade de aprofundar aqui, mas eu recomendo que quem quiser saber do que se trata a Gel Engenharia dá uma checada no meu blog, “O que você faria se soubesse o que eu sei”. Não tenho dúvida: a saída é efetivamente derrotar esse sistema. Aliás, esse sistema, ele já está derrotado. A grande questão é: nós vamos resolver a parada com o capitalismo por bem ou por mal? Por bem a gente revoluciona essa sociedade, muda tudo de cima para baixo, restabelece algo ambientalmente sustentável, baseado em energia limpa, respeitando os fluxos naturais e distribuindo a riqueza de forma equitativa, justa, dentro da suficiência, e não de uma abundância abstrata e vazia. Mas isso implica que a gente revolucione esse sistema. O outro lado é o sistema ser derrotado por Gaia, porque Gaia pode virar Medeia e se vingar. Basta ser sacolejado e se livrar das pulgas. E nós estamos liberando, com as provocações que o antropoceno trouxe para o clima, para os oceanos, para a biodiversidade, para a camada de ozônio, para a própria composição química dos solos, dos rios etc. Os impactos que o antropoceno está trazendo estão liberando as forças que podem retornar em reação e destruir esse mesmo sistema. A grande realidade é: o capitalismo está condenado, a questão é: nós vamos condenar a humanidade junto com ele ou não?. Eu quero o desmonte organizado desse aparelho produtivo. Eu quero uma saída justa, uma saída para a grande maioria da humanidade e para as demais formas de vida. O que está em jogo, não tem mais meio termo, é ecossocialismo ou barbárie, ou extinção.