Consciência Negra: os Zumbis dos Palmares nossos de cada dia

5O 20 de novembro é lembrado como dia de morte de Zumbi dos Palmares (1695). Zumbi foi líder do Quilombo dos Palmares, juntamente com sua esposa Dandara. A data é celebrada como o dia da consciência negra e, desde 2002, é feriado estadual no Rio de Janeiro.

Passados mais de 128 anos de assinatura da lei áurea – que alforriou, mas não libertou, de fato, os negros escravizados -, o racismo persiste na sociedade brasileira. Por isso, a cada mês de novembro, reafirmamos a importância da luta diária contra o preconceito racial.

Nas últimas década, a “guerra às drogas” tem servido de pretexto para criminalizar a pobreza e se praticar um extermínio da população negra e pobre nas periferias e favelas. Hoje, existem mais de 140 mil presos por tráfico nas cadeias brasileiras. A maioria jovens, negros e pobres, réus primários presos com pequenas quantidades de maconha. A “guerra às drogas” é, na verdade, uma guerra aos pobres!

Sobre essa questão, Luciene Lacerda (psicóloga da UFRJ, militante do Fórum Estadual de Mulheres Negras e da coordenação da Marcha de Mulheres Negras) escreveu um artigo especial para o mandato de Renato Cinco. Em seu texto, Luciene atenta para os assassinatos cometidos pela polícia militar na dia 19 de novembro, na Cidade de Deus. Os corpos de sete jovens foram encontrados, emblematicamente, no dia 20 de novembro, na mata próxima à favela. Confira o artigo:

Dia da Consciência Negra, Dia dos Zumbis nossos de cada dia

Por Luciene Lacerda, Psicóloga da UFRJ e militante do Fórum Estadual de Mulheres Negras e da coordenação da Marcha de Mulheres Negras

Ontem, dia 20 de novembro, dia da morte de Zumbi, relembramos quantas lutas foram e ainda são extremamente necessárias para que o privilégio da vida e dos direitos não sejam apenas de uma cor/raça. Dia de relembrar das lutas de Dandara, Luiza Mahin, Laudelina Campos Melo, Luiz Gama, Hemetério dos Santos, Vicente de Souza e tantos outros e outras. Das nossas lutas que culminaram com a lei 10.639, pela inclusão da História da África e da Cultura Negra, também com as Ações Afirmativas, que incluíam cotas para negros e negras em vagas na universidade pública, com a Política de Saúde Integral da População Negra. E agora precisam se voltar contra a PEC 55, contra o sucateamento da saúde e da educação, com as ameaças de esvaziamentos das leis que construímos, contra a mortalidade materna das mulheres negras, contra a morte de nossos jovens negros.

Na véspera, no dia 19, 7 jovens sumiram após a ação militar, e seus corpos foram encontrados no dia de Zumbi.

Seus parentes expuseram seus corpos negros com perfurações de tiros e facadas, depois de conseguirem entrar na mata no meio da manhã, quando os primeiros repórteres chegaram, pois os PMs impediam a entrada para procurarem seus filhos. Havia sinais de execução.

A Cidade de Deus mostrada ao mundo como o retrato da violência e falta de estrutura e aportes sociais. Mostra o que esse estado oferece aos seus moradores. Nada. Ou melhor, insegurança.

Esse é um dia que gera prazeres pela beleza de corpos negros, dos cabelos crespos e, arte, samba, jongo, capoeira; e também de dor, lamentos, brigas e lutas contra o racismo estruturante que mata, silencia nossa história, nos desaloja de nossos territórios, como no Quilombo do Horto, que não respeita as Religiões de Matriz Africana.

Temos no próximo período o desafio da manutenção de direitos adquiridos, das leis aprovadas e que ainda não foram implementadas em sua plenitude, mas que já estão ameaçadas de serem revogadas. O pacote da PEC 55, a nível federal e a extinção da SEASDH (Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos) no estado do Rio de Janeiro são duros golpes para a população negra. Além do significado da eleição de um prefeito líder religioso que já pregou contra negros, gays e mulheres.

Hoje amanhecemos com a notícia de proposta de mudança para a LDB, onde não é mais obrigatório o ensino de cultura afrobrasileira. Não é mais garantida a universalidade do ensino básico. Não é mais garantida a gratuidade do ensino público básico (tanto no fundamental quanto no médio). Não é mais obrigação do Estado garantir educação infantil para todos. Todas estas mudanças são terríveis para a população negra, majoritariamente pobre, e o anúncio de um novo silenciar da nossa história.

Dia 22 de novembro relembramos a luta pelos nossos injustiçados, como João Cândido, o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata. Temos que lutar contra mais essas chibatadas.

Basta de genocídio do povo negro! Basta do genocídio de nossas vidas, da nossa história.