Marielle vive!

“Não, nós nos negamos a acreditar
que um corpo tombe vazio
e se desfaça no espaço
feito poeira ou fumaça
adentrando-se no nada dos nadas
nadificando-se.
Por isso, na solidão desse banzo antigo
rememorador de todas e de todos
os que de nós já se foram,
é no espaço de nossa dor
que desenhamos
a sua luz-mulher – Marielle Franco –
E as pontas de sua estrela
enfeitarão os dias
que ainda nos aguardam
e cruzarão com as pontas
das pontas de outras estrelas,
habitantes que nos guiam,
iluminando-nos e nos fortalecendo
na constelação de nossas saudades”.
(Conceição Evaristo)

As palavras não bastam para dizer sobre a dor que nos invadiu nos últimos dias. É difícil aceitar que não temos mais entre nós Marielle Franco. É doloroso ocupar as ruas para dizer que não terá sido em vão a luta daquela que com a gente sonhou, construiu resistência e fez história.

Nove tiros contra ela. Três acertaram a sua cabeça, outro o pescoço. Mandantes e executores de Marielle tiraram ainda a vida de Anderson Pedro Gomes. Ele também jamais será esquecido por nós e pelos seus.

Nesse momento de dor, também precisamos organizar a nossa resistência. Precisamos falar sobre o extermínio, sobre as balas que têm territórios e alvos escolhidos, porque não podemos esquecer de nenhuma e nenhum de nós que tomba. Em nossas trincheiras – carregadas de revolta e desejo de um mundo onde a barbárie não seja modo de vida – manteremos viva a memória de Amarildo, de Cláudia, de Maria Eduarda, do menino Benjamin, porque quando alguém de nós sangra o recado é endereçado a nós todos.

Também não podemos deixar de falar sobre os motivos que nos fazem tombar: o estado brasileiro é racista, genocida, feminicida, intolerante com as diferenças e com a pobreza que ele mesmo cria. Dizer a verdade é parte do nosso compromisso com as lutas e é por isso que gritamos: MARIELLE foi executada.

Marielle não foi vítima da “violência desenfreada” alardeada pela mídia, pelo desgoverno de Pezão e pelo ilegítimo Michel Temer. Mulher negra, militante em defesa dos direitos humanos, feminista, contra a lgbtfobia, vereadora aguerrida, Marielle foi executada porque ela e as suas ideias incomodaram os donos do poder.

Na volta ao plenário da Câmara Municipal do Rio, depois do assassinato de Marielle, Renato Cinco lembrou que a companheira ia à tribuna para dar voz ao povo e destacou que a sua morte é um crime político. “Nós não temos dúvidas de que a Marielle foi executada, aquilo foi praticado por profissionais do assassinato. A gente ainda não sabe quem puxou o gatilho e nem quem mandou puxar, mas nós sabemos o que matou a Marielle: foi o sistema”, disse Cinco.

Veja a íntegra do discurso:

Em fevereiro, Marielle se tornou relatora da comissão que acompanha a intervenção federal no Rio. Na Câmara Municipal, denunciou inúmeras vezes os abusos das operações policiais, as violências sofridas pelas comunidades das favelas – 16 é a média de pessoas assassinadas por dia no Estado do Rio de Janeiro, segundo o Instituto de Segurança Pública. Como assessora de Marcelo Freixo, coordenou a Comissão de Direitos Humanos da ALERJ e também trabalhou duro na CPI das Milícias, que terminou, em 2008, com 226 indiciados entre ex-secretário, deputado estadual e vereadores, policiais civis, policiais militares, bombeiros, agentes penitenciários, militares das Forças Armadas.

Do luto à luta!

Caixão fechado. A morte de Marielle também nos diz sobre o corpo que vale menos para os donos da Casa Grande. Os covardes que ali residem têm medo de mulheres como Marielle, que contrariam as normas, que dizem não, que denunciam quando a regra é calar. Cria da Maré, Marielle gostava de papo-reto e nunca foi de baixar a cabeça. Aprendemos com ela e com a nossa ancestralidade! Quem a matou, além de um crime brutal, cometeu um grave engano: é impossível silenciar alguém que fala na primeira pessoa do plural.

Horas após a sua execução, a rua já estava ocupada e se espalhavam vigílias em vários cantos do mundo: #MarielleSemente, #MarielleGigante #MariellePresente nas bandeiras, nas lágrimas, no nosso compromisso coletivo de transformar a dor da perda em razão para seguir em luta. Cem mil pessoas perguntaram no Rio: quem matou a Marielle? E prometeram lutar por justiça, contra o genocídio do povo preto e pobre e pelo fim da polícia militar.

Passados seis dias, milhares estiveram reunidos novamente em um grande ato inter-religioso em memória de Marielle e Anderson. Família, amigos, companheiros e companheiras, artistas, a militância negra, lgbt, socialista, as mulheres que fizeram a primavera feminista nas ruas e nas urnas, pessoas que de diversas maneiras também se veem nas pautas que Marielle defendeu feroz e alegremente. MulheRaça, ela diria.

“Pra matar preconceito eu renasci”, cantou o mar de gente da Cinelândia ao fazer eternizar e renascer a Marielle. Filha de Marinete e Chiquinho, mãe de Luyara, companheira de Mônica, camarada das mulheres, irmã de negras e negros, militante pelo socialismo e pela liberdade, Marielle vive em nós, em muitas e muitos de nós, ela é gigante. Sua força e sua voz ecoarão em outras bocas e em muitos cantos por todo o mundo agora e sempre.