Bolsonaro e a falácia da epidemia de drogas

O governo Bolsonaro aposta no endurecimento da política de drogas e não poupa nem o conhecimento científico para impor a agenda proibicionista. Por entrar em conflito com o discurso da “epidemia de drogas”, o 3ª Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira (Lnud), realizado pela Fiocruz, foi engavetado pelo governo federal, mas acabou vazando na última semana. O Ministro da Cidadania, Osmar Terra, afirmou em entrevista recente que “não confia” nas pesquisas da Fiocruz.

Apontado como grande vilão desta suposta epidemia, o crack é consumido por uma parcela muito pequena da população. Só 0,1% dos brasileiros usaram crack no mês anterior à pesquisa. E apenas 0,9% consumiram a droga ao menos uma vez na vida.

Chama atenção nesta pesquisa que dados consumo de opiáceos superada o de crack. A diferença é que estes são comprados de forma lícita nas drogarias, mesmo quando os pacientes não possuem prescrição médica para usar este tipo de droga. Os dados do Lnud apontam que 0,6% da população fez uso de opiáceos no último mês e 2,9% dos brasileiros já usaram este tipo de droga.

O álcool é de longe a droga mais utilizada no país. Entre os que declararam ter consumido bebidas alcoólicas no último mês o percentual é de 30%. E sobe para 66% entre aqueles que experimentaram ao menos uma vez na vida.

O uso regular do cigarro (nos últimos 30 dias) é feito por 13% da população. No levantamento feito em 2005, 18,4% dos entrevistados declararam que tinham feito uso desta droga no último mês.

A maconha é a droga ilícita mais utilizada no país, mas os índices revelam uma quantidade menor de consumidores, quando comparado com drogas legalizadas como o álcool e o cigarro. Apenas 1,5% dos brasileiros usou maconha nos últimos 30 dias. O percentual daqueles que já experimentaram, ao menos uma vez, a cannabis é 7,7%.

Além de censurar e tentar desqualificar pesquisas que entram em conflito com o discurso oficial, o governo Bolsonaro articulou com o presidente do STF, Dias Toffoli, a retirada da pauta de julgamento do processo que pode descriminalizar o porte de drogas no Brasil. Marcado inicialmente para o dia 5 de junho, o caso segue sem data para recomeçar, trancado em alguma gaveta da burocracia proibicionista.