Militar traficante na comitiva presidencial escancara a hipocrisia da “guerra às drogas”

Na quarta-feira (26), autoridades espanholas na cidade de Sevilha encontraram 39 quilos de cocaína na mala de um militar da aeronáutica da comitiva presidencial. Uma quantidade como essa não é vendida ou comprada facilmente. Há claras indicações da existência de um grupo organizado de tráfico de drogas internacional se valendo de militares brasileiros para fazer o translado entre América do Sul e Europa.

O vice-presidente Hamilton Mourão comentou o caso afirmando que “acredito que esse militar aí é questão de dinheiro, né? Então você sabe que o dinheiro é algo… o vil metal corrompe. A pessoa tem que ser muito forte mentalmente, muito ciosa dos seus valores e dos seus deveres para não ser corrompida”. Em certa medida, ele está certo: as Forças Armadas são corruptíveis pela força do dinheiro do tráfico de drogas. Mas Mourão é leviano ao afirmar que foi um militar agindo sozinho. Muito provavelmente, o piloto preso é uma única peça de esquema mais amplo de corrupção nas Forças Armadas, um que chega às altas patentes que abafam casos similares.

Já para o ministro da Justiça Sérgio Moro “é uma ínfima exceção”. Por cinismo ou por ignorância, ele erra seriamente: não é um caso isolado. Nosso mandato fez um levantamento de casos similares apenas nos últimos dois anos:

  • Em dezembro de 2017, três militares foram presos na fronteira com o Paraguai trazendo armas.
  • Em janeiro de 2018, em Itatiaia, um militar foi preso de uniforme com 19 fuzis, 41 pistolas e 5 tabletes de pasta base de cocaína.
  • Em janeiro de 2019, um militar foi preso em Olinda com três fuzis, uma pistola, cocaína e crack, além de balanças de precisão e demais instrumentos de medição.
  • Em abril de 2019, um tenente-coronel do Exército foi preso por ser o principal armeiro do tráfico carioca. Ele era o responsável pela fiscalização de armamento no Rio de Janeiro e Espírito Santo.
  • Em junho de 2019, dois militares foram presos por desvio de munição do Exército para o tráfico de drogas do Complexo da Penha.

Como a hierarquia militar evita ouvidoria externa, dificulta a publicidade de casos assim, o que facilita a impunidade e corrobora que outros casos jamais se tornem de conhecimento público. Durante a intervenção no Rio de Janeiro, a corrupção no Exército foi noticiada como uma preocupação constante dos comandantes das operações. As Forças Armadas são tão vulneráveis à corrupção do tráfico de drogas quanto às polícias militares e civis ou qualquer outra aparato de repressão.

O episódio do tráfico de cocaína no avião da comitiva de Bolsonaro precisa ser investigado. O caso é grave e escancara uma fragilidade no protocolo de segurança da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) na proteção da Presidência da República.

Ao comentar sobre o assunto, o vereador Renato Cinco lembrou do período que Bolsonaro foi vizinho de um matador de aluguel. “Mesmo após eleito ele continuou sendo por três meses vizinho do matador. A Abin não achou interessante interferir nesse caso. E agora, a Abin e a Polícia Federal ajuda a desmoralizar o Brasil ao permitir tráfico na comitiva do presidente da república”, criticou Cinco.

Essa é mais uma prova daquilo que nosso mandato sempre disse: a “guerra às drogas”, que sempre foi uma guerra aos pobres, fracassou. Precisamos de uma nova política de drogas, uma que não passe por assassinar negros e pobres para garantir o lucro de traficantes que jamais serão descobertos.

A dita “guerra às drogas” é racista e atinge mais duramente os pobres. De outro lado, os verdadeiros mandantes, aqueles que ficam ricos com o tráfico, jamais são descobertos. Parte significativa da economia do tráfico de drogas passa por policiais e pelas Forças Armadas. E mesmo nas polícias e nas Forças Armadas a lógica continua: os pé-rapados são presos, os poderosos jamais. Os soldados e cabos são descobertos, os coronéis e generais não. Precisamos mudar radicalmente nossa política de drogas. Esse é o único caminho para desmontar o poder do tráfico e avançar rumo à verdadeira segurança pública.