Nada a comemorar

Na manhã de terça-feira (20), os moradores do Rio de Janeiro amanheceram com a notícia angustiante de um ônibus sequestrado, no meio da Ponte Rio-Niterói. William Augusto da Silva, de 20 anos, manteve 39 pessoas como reféns.

Antes que a manhã terminasse os reféns estavam liberados e o sequestrador morto por tiros de um sniper da polícia militar. Nenhum refém ficou ferido.

O triste episódio não chamou mais atenção do que a comemoração do governador Witzel pelo “abate” do sequestrador.

Da tribuna da Câmara carioca, o vereador Renato Cinco (PSOL) lembrou que a política de confronto, adotada há anos por sucessivos governos e intensificada neste, nunca funcionou.

“Burrice é você repetir a mesma ação esperando um resultado diferente. Se o Brasil fosse um indivíduo, ele tinha que estar na terapia (…). A gente precisa enfrentar a questão da segurança pública e a gente fica insistindo em intensificar o que não funciona. Se matar bandido fosse solução para o problema da segurança pública, o Brasil tinha que ser campeão em paz social no planeta, ninguém no mundo executa tantos criminosos como no Brasil”, ironizou Cinco.

Dados do Instituto de Segurança Pública indicam que de janeiro a junho deste ano, 881 pessoas morreram após intervenção policial no Rio, foram 769 no mesmo período de 2018. Isso equivale a 4,89 mortes por dia.

O Instituto de Segurança Pública (ISP) indica também que as polícias Militar e Civil do Rio mataram 434 pessoas de janeiro a março deste ano (2019). O número equivale a quase cinco (4,82) mortos por dia, recorde para o período na série estatística de 21 anos, iniciada em 1998.

Durante o discurso, Renato Cinco (PSOL) lembrou ainda dos seis jovens mortos recentemente pela polícia carioca.

+ Gabriel Pereira Alves, 18 anos, negro, estudava o 3º ano do ensino médio. Morto por bala perdida em um ponto de ônibus na Rua Conde de Bonfim numa descida do Borel.

+ Lucas Monteiro dos Santos Costa, 21 anos, negro, paraquedista do exército. Se envolveu em uma briga numa festa onde houve disparos. Três pessoas morreram. Sinceramente, eu não faço a menor ideia do porquê de estarem botando essa morte na conta da polícia. A suspeita é de que ele foi morto por “pessoas armadas” (milicianos, talvez?) que entraram na festa atrás de ladrões e descobriram que ele era militar.

+ Tiago Freitas, 19 anos, negro, estudava o ensino médio. Era amigo da vítima anterior e foi um dos baleados na mesma festa.

+ Dyogo Costa Xavier de Brito, 16 anos, negro, jogava pelo time do América. Foi morto durante uma operação policial na favela da Grota, em Niterói.

+ Henrico de Jesus Viegas de Menezes Junior, 19 anos, negro. Foi morto durante operação da polícia na favela Terra Nova, em Magé.

+ Margareth Teixeira, 17 anos, negra. Atingida por bala perdida durante operação na favela do Quarenta e Oito, em Bangu. Estava com o filho de 1 ano e 9 meses no colo que também foi atingido por uma bala de raspão no pé e foi internado no hospital.

Cinco lembrou que diante das mortes, o governador responsabilizou os defensores dos direitos humanos.

“Olha governador, matar bandido é o que se faz o tempo todo no Brasil, há muito tempo, cada vez mais. Isso não resolve o problema da violência, faz vítimas todos os dias, mas sabe qual é o remédio que a gente nunca adotou? Nós nunca adotamos os direitos humanos. O Brasil pode ter muito defensor dos direitos humanos, mas tem muito porque falta o cumprimento. O que falta não pode ser responsabilizado como se existisse em excesso. Aumentar a dose da letalidade nunca foi a solução”, frisou.

Após a repercussão negativa, o governador Wilson Witzel disse que não comemorava a morte e sim as vidas salvas. A consciência da má postura não limpa a barra de quem já disse que quem estiver com um fuzil deve ser abatido e que a polícia deve “mirar na cabecinha”.

É preciso rever a política de segurança e o deslumbre de um governo que ainda não apresentou nada além de cadáveres.

Importante lembrar também que as operações nunca ocorrem em territórios dominados pelas milícias, denotando uma certa preferência de quem são esses “narcoterroristas” alvejados pelo Estado.