Um novo ciclo de lutas para Equador e Chile

Desde o final do mês passado, o Equador enfrenta uma crise política e uma rebelião popular, com forte presença indígena.

O disparador foi um decreto, fruto de um acordo com o Fundo Monetário Internacional, que previa o arrocho e a carestia, em especial o aumento do preço dos combustíveis em mais de 120%.

Passeatas massivas contra as medidas do governo tomaram as ruas de Quito ao longo de três semanas. A polícia agiu de forma violenta, incluindo, segundo a imprensa local, o uso de armas letais como snipers para atingir manifestantes. Ao todo, os protestos deixaram 8 mortos, 1340 feridos e 1192 presos. O governo chegou a fugir da capital e ser ameaçado de deposição.

Nessa semana, o governo enfim não resistiu à pressão e revogou o decreto. Porém, a luta política está longe de acabar no Equador. Moreno está agindo para prender quem considera líderes da oposição. Uma promotora pediu a prisão preventiva da governadora da região de Quito. Quatro legisladores, entre diversos manifestantes, estão refugiados em embaixadas, sob risco de prisão. Lenín Moreno cedeu por medo, mas escancara seu viés autoritário ao perseguir política e criminalmente seus opositores.

Poucas semanas depois, também ocorreram manifestações massivas no Chile. Após décadas de mobilizações contra a economia neoliberal e privatizante, mais um ciclo de revoltas chilenas explodiu.

As manifestações focam na luta contra o aumento do preço das passagens, a reversão da aposentadoria por capitalização(modelo que o Guedes queria implementar aqui), redução da jornada de trabalho de 45 para 40 horas e medidas privatizantes dos direitos básicos.

Com a intensificação dos protestos nas ruas, passaram a pedir pela renúncia do presidente da direita neoliberal, o Piñera, e pelo fim da militarização das repressões aos protestos.

A repressão está intensa, tanto nas ruas como nos discursos oficiais. Ao menos 1420 pessoas foram presas, 84 feridas e 18 morreram. Segundo o Instituto de Direitos Humanos do Chile, a polícia utilizou munição letal em ao menos uma manifestação.

O Colégio de Médicos, o CRM de lá, acha que esses números estão subestimados.

Nos jornais, imagens falsas sobre incêndios e depredações foram extensivamente publicadas. Parte dessas imagens enchem os jornais brasileiros. A lógica é a mesma: não lutem, lutar pelos seus direitos é atrapalhar a sociedade.

Para piorar, o presidente Piñera se reuniu no início da semana com donos de supermercados e banqueiros, e conjuntamente decidiram por uma redução de horário de funcionamento dos mercados e diminuição da frequência de reposição de caixas eletrônicos, o que geraria a sensação de desabastecimento.

O Chile foi o primeiro país a implementar o neoliberalismo, as privatizações infindáveis e o austericídio, durante a ditadura sanguinária de Pinochet. De lá para cá, o país é crescentemente mais desigual, socialmente injusto e repleto de bolsões de pobreza.

Acuado, na terça-feira o presidente Piñera recuou, apresentando um pedido de desculpas bem como o congelamento das tarifas de eletricidade, anulação de aumento de 9,2%, redução nos salários de parlamentares e funcionários da administração pública, redução no número de parlamentares e limite ao número de reeleições. Um aumento de até 20% nas aposentadorias, salário mínimo complementar de 350 mil pesos (equivalente a 1970 reais), aumento nos impostos dos que ganham mais de 8 milhões de pesos (aproximadamente 44 mil reais).

As centrais sindicais chilenas ainda assim marcaram início de uma greve geral nesta quarta (23). Militantes chilenos reclamam que as mudanças propostas por Piñera são insuficientes. A tributação sobre os mais ricos retornaria ao patamar do ano 2014, a reposição salarial apenas acompanharia a inflação e traria poucos ganhos.

Lutar contra a austeridade não é crime, é dever cidadão! Não à perseguição dos lutadores, não à austeridade, não ao FMI.

Todo apoio à luta popular e indígena dos equatorianos. Todo apoio à luta contra o arrocho salarial, o encarecimento dos custos básicos e por melhores condições de vida dos chilenos.